Fargonews’s Weblog

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O trabalho dignifica o homem?!

Março 19, 2009 · Deixe um comentário

Reedição, com adendo.

Parece que é algo lógico né? O tal do “O trabalho dignifica o homem”. Porém, nem sempre tudo é simples assim, veja se não:

- O trabalho mumifica o homem quando faz-se a mesma coisa, repetida, sempre e sem mudança, a cadeira do escritório é a mais clara testemunha da mumificação do espaço duplamente ovalado que formata o assento à sua imagem e semelhança;

- O trabalho bestifica o homem quando as atividades do dia-a-dia são tão estimulantes como aprender formas diferentes de executar o Ctrl C, Ctrl V no computador;

- O trabalho coisifica o homem em muitas situações em que a dignidade do empregado como ser humano é preterida à audiência do programa, à margem de lucros da empresa, à margem de corrupção e de manutenção de “esquemas”;

- O trabalho santifica o homem (valeu São José – o pai e o escrivá tb) se colocamos nele o Amor de Cristo, se oferecemos a cada instante aquele suor, cansaço ou o que for para o bem da humanidade.

Então, um trabalho que dignifique mesmo tem de fazer bem pra dignidade do sujeito, o resto é balela. Então, esse trabalho existe?!?! Ah rapaz, existe sim e exige subsidiariedade para ser feito. Mas, hein?! O que que é esse subsídio diferente?!?! Uma dica, mas melhoro o posto depois.

PS: Homem, no post, se refere a toda a humanidade.

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Capítulo 3 de Fargow

Fevereiro 12, 2009 · Deixe um comentário

Este é o último capítulo das antigas, depois desse eu vou ter que colocar a cabeça pra funcionar e a tendinite pra voltar a doer.__________________________________________________

Se algum dos meus dois leitores habituais (eu mesmo e você) tiver uma sugestão para onde pode ir a história, pode dar o pitaco que será bem vindo.

Sem mais delongas… Fargow e um personagem novo!

O Encontro

Não conseguia falar. Estava tomado de medo, e uma sensação de vergonha fazia o sangue subir às suas bochechas. Parecia anestesiado da dor, nem se lembrava do espinheiro.

O que eu fiz?! Seu burro, você estragou tudo!

Tentava recompor seus pensamentos, mas os olhos cinzentos insistiam.

- Responda! O que faz aqui?! Veio alimentar os lobos? , soltou uma risada mórbida, que congelou a espinha do jovem.

- Calma meu rapaz. Phentum está apenas brincando. Mas agora que chamou nossa atenção queira falar porque está aqui.

- Eh… – tentava se mexer e sair do espinheiro – … eu… meu nome é Fargow… – balbuciava as palavras.

- Sim, o que você veio fazer aqui?

Levantando-se com dificuldade, por causa dos ferimentos, Fargow fala com mais confiança, tranqüilo por perceber naquela figura simpatia que lhe confortava o pensamento.

- Eu queria conhecer vocês, quero ser um druida também.

Alguns risos são ouvidos do grupo que tinha se juntado para olhar de perto o intruso. Resmungos de reprovação também compunham o coro. O cenário não parecia ser muito favorável ao pequeno aspirante.

- Meu amigo – Jertil coloca a mão sobre o ombro do jovem – ser um druida é uma decisão muito importante e exige muita maturidade por parte do interessado. Porém, não somos somente nós quem escolhemos esse destino, a natureza nos convida e faz com que nosso sangue pulse de uma maneira singular. A linhagem da qual provém um aspirante à vida de intimidade com os elementos é seleta, pois devemos preservar a sacralidade do nosso ofício. O que fazemos é algo de carinho, de zelo que….

- Chega de tagarelar com esse moleque, temos assuntos a tratar! Fora com ele!!

A figura humana, que tinha descido majestosamente sob a forma de uma águia, aproxima-se do trio, abrindo espaço entre seus pares. A sua altura aliada ao olhar escurecido pelas densas sobrancelhas e pelas rugas em sua testa davam a Marghd, chefe do clã dos Tiltrean, uma aparência ao mesmo tempo atemorizante e respeitosa. Fargow tentou arrumar sua roupa, suja de barro e gotejada com o sangue trazido do espinheiro. Com reverência, Phentum e Jertil deixam face a face seu senhor e aquele perturbador da ordem.

Observando bem profundo num mergulho pelo negro dos olhos de Fargow, Marghd parecia ler sua alma, e desaprovar o que estava escrito.

- Garoto vá embora, aqui não é o seu lugar.

- Mas…

- Não tenho tempo para escutar seus sonhos. Vá para a cidade e seja um bom estalajadeiro.

- Saia daí!

Usando toda força que ainda tinha, Fargow puxou com violência a capa de Marghd para baixo, fazendo o corpanzil se curvar um pouco. O druida sentiu uma breve e silenciosa brisa passar rente a seu ouvido.

- Como ousa!

Num movimento, Phentum tira um punhal de seu cinto e, agarrando Fargow pelos cabelos e, puxando-o do solo, coloca a lâmina rente ao pescoço condenado.

Maghd, agora já em pé e restabelecido, grita com Phentum.

- Não lhe faça mal!

- Mas senhor…

- Largue-o e descubra de onde veio aquilo.

Os olhares seguiram a direção apontada pelo dedo, onde uma flecha cravada no tronco de uma das grandes árvores ainda vibrava.

O tempo para que todos pudessem se admirar e espantar com o acontecido não foi suficiente. Três zunidos rasgaram o ar. Com eles, os gemidos de uma dor lancinante, Maghd tomba sem vida num monte de folhas ressequidas.

Phentium larga Fargow com tanta força que um tufo de cabelo ficou em sua mão. Lança-se para acudir seu maior ídolo.

- Senhor… desgraçados! São eles, os elfos! São flechas de Seldin! Protejam-se!

Mais setas começam a vir na direção do grupo, como uma chuva letal caindo da copa das árvores.

Fargow corre para esconder-se novamente. Caramba, que está acontecendo? Toda aquela cena era chocante demais.

Pegando sua foice e repetindo palavras em um linguajar desconhecido, um druida se prepara para lançar um encantamento. O metal em sua mão agora brilha intensamente e, com força, é cravado no chão. Buracos começam a se abrir no solo e por eles são vomitadas formigas de proporções enormes. Os insetos rapidamente chegam às, sobem os troncos e inundam as copas das árvores.

Gritos de dor vindos do alto precedem elfos que caem, infestados de bichos que abrem feridas em seus corpos.

Uma névoa estranha começa a descer e escurecer aquele início de tarde.

- Rápido Gulyin, faça um jato de vento para dissipar a magia.

Quando abria suas mãos para lançar a ventania, uma seta transpassou sua garganta, que soltava a última palavra do encantamento.

A escuridão cegava os movimentos dos druidas. Desorientados, buscavam em vão fugir para esconderijos.

- Agora! Gritou uma voz por detrás da névoa.

teoCom sua visão noturna os elfos conseguiram facilmente apanhar suas presas. Pulando no chão, com seus punhais longos de dois gumes furavam e faziam sair golfadas de sangue das capas que já não tinham mais tom marrom.

- Achem logo o que viemos buscar, não quero mais me manchar com esse sangue.

Fargow já não conseguia ver nada. Procurava perto de si sua foice. Seus olhos estavam inutilizáveis, mas tocando sentiu, ao lado do corpo de Maghd, sua pequena arma, pelo menos parecia ser ela.

Levantou-se e começou a correr, mas logo tropeçou em algo que o fez cair.

AH, outro corpo, tenho de sair desse inferno!

Pelo formato do objeto Fargow reconheceu ser um livro, bastante pesado. Pegou-o, sem saber realmente porquê, e partiu em disparada rasgando seu rosto e seus braços nos galhos secos e arbustos. Não se importava com as feridas, contanto que saísse dali.

Os últimos gritos dos druidas delineavam que a luta já tinha chegado ao seu término. A névoa lentamente dissipou-se e um cenário triste quebrou a beleza daquele verde cheio de vida. Os corpos dos companheiros felizes pelo reencontro, agora estavam sem expressão, largados para os abutres e as larvas.

- Vasculhem tudo! Preciso daquele livro!

A figura de Teo se destacava dos outros elfos… apesar de dar ordens com tanta firmeza seu olhar parecia longe. O rio Sarflen, com seu azul intenso, parecia querer refletir a profundidade do pensamento latente na visão de Teo. Perdido em direção a seu mar, o olhar azul cristalino do rapaz se turvava em lembranças que remetiam àquele livro. Seus longos cabelos loiros esvoaçavam com uma corrente que trazia o cheiro do sangue para dentro de suas narinas. Todo aquele sangue. Toda aquela dor. Mas havia um objetivo: o livro, precisava encontrá-lo. Por si mesmo, por ela…

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História de Fargow – capítulo 2

Fevereiro 6, 2009 · Deixe um comentário

Retomando a história do personagem que deu origem ao Blog. Esse capítulo está localizado temporalmente 10 anos antes do primeiro…  Agora tem que ler o primeiro para entender melhor o enredo da história.  

Vejam e falem o q acham =) 

CAPÍTULO II – Na Floresta

O pequeno Fargow acordou feliz. Levantou-se cedo, junto com o sol. Colocou qualquer roupa sobre o corpo, tinha pressa. Pegou sua foice enferrujada, guardou-a entre o cinto e o tecido da roupa. Despediu-se dos companheiros e saiu do abrigo.

Rapidamente a cidade ficou para trás. Diante dele a Floresta Sufocante surgiu, imponente. Sua grande amiga, sua companheira e confessora. Sempre que se sentia só corria para lá para ouvir os pássaros, sentir o cheiro da vida, unido, feito de natureza. Muitos viam naquelas árvores apenas catapultas, portas e mesas. Para Fargow elas tinham outro significado, mais misterioso, mais profundo. A vida vinha dali, a cidade era resquício da exuberância que se fechava ao redor do rapaz.

Aquele sim era seu lugar, sentia-se em casa. A cada passo para dentro do verde sem fim seus sentidos se aguçavam. Os olhos brilhavam, os ouvidos reconheciam a gralha, a codorna e outros tantos pequenos pássaros. Sabia que os lobos haviam passado e feito sua refeição noturna pelo cheiro que a caça exalava. Conhecia as idades das árvores pelas suas rugas, ao tocar suas raízes. Esse era seu recanto de paz.

Queria parar e demorar-se em cada olhar, mas a reunião já estava para começar. Tinha esperado por isso por dois longos anos e seu sonho logo seria realizado. Apertando o passo, chegou ao local onde o verde era intenso. Estava no centro da floresta, às margens do rio Sarflen, onde as árvores anciãs viviam. Elas eram as primeiras espécies que deram origem à Sufocante, trazidas por pássaros de além-mar em tempos já esquecidos.

De repente, avistou luzes em pontos diferentes da floresta. Não faziam os olhos arder, eram suaves, porém penetrantes. Deslocavam com grande intensidade. Depois de um tempo aumentaram de número e se aproximaram. Podia ver nitidamente os troncos das árvores reluzindo. Olhava perplexo aquele espetáculo. O que poderia significar aquilo? Pareciam grandes vagalumes aprisionados no interior da madeira.

A raiz ao seu lado começou a brilhar. Enfim, todo tronco resplandeceu com uma luz intensa e calma. Com um pulo, Fargow ficou em pé e não parou de olhar fixamente aquilo. A luz começou a se desvencilhar do tronco, projetando-se para fora. Instintivamente o menino, com os primeiros fiapos de barba no rosto, se escondeu atrás de uns arbustos próximos.

Do lugar onde estava, entre os galhos e ramos, podia acompanhar tudo sem ser notado. O feixe de luz que tinha saído do tronco começou a tomar forma. Parecia se locomover sobre o chão. Lentamente, o brilho foi diminuindo e Fargow enxergou uma longa capa cor de musgo. Nas pontas da roupa, traços humanos ficavam mais nítidos. Um senhor de longas barbas grisalhas, aparentando certo cansaço, agora fica ao lado do carvalho.

De tanto olhar aquela cena, o jovem curioso perdeu o resto do espetáculo. Vários outros homens, todos de capas, algumas cinzas, outras marrons e de tons terrosos, tinham aparecido e cumprimentavam-se contentes. Um grunhido vindo do céu chama a atenção. Faz-se um grande silêncio na roda dos velhos conhecidos. Todos vasculham o horizonte, buscando a origem do som. Fargow cerra os olhos e enxerga uma águia que fazia sombra contra o sol que penetrava pelas copas. Ela vinha num vôo descendente. Agora todos conseguem ver o grande pássaro que, majestoso, rodeia o grupo.

Todos os druidas – tinha certeza que eram eles – abaixaram a cabeça, reverenciando a ave que descia, de asas abertas. Tão logo suas garras tocaram o chão, uma névoa brilhante escondeu-o da visão. A névoa foi se dissipando e uma figura masculina aos poucos foi se condensando. Ele devia ter perto de dois metros de altura, tal era a sua imponência. Longos cabelos brancos desciam até o cinto que segurava sua capa.

Aquela cena era fascinante.

São eles… é assim que eu quero ser… preciso tomar coragem e chegar lá…

Enquanto pensava consigo, ouviu um barulho num arbusto logo ao lado de seus pés.

Com o susto deu um pulo para trás. Na queda, seus pés resvalaram numa raiz. Tombou bem em cima de um espinheiro. As mãos e sua roupa rasgaram feito papel. Segurou o grito e não deixou que as lágrimas ganhassem voz. Não podia ser visto assim… A foice que estava segura em seu cinto encostou em um filhote de coelho que tinha ficado preso entre os espinhos. O bichinho soltou um grunhido.

- Que barulho foi esse?, adiantou-se Veron.

- Sons da floresta… algum lobo começando a jantar.

- Não o coelho! Parece um ranger de dentes.

Fargow não conseguia se mover por causa da dor. Sentiu uma brisa se aproximando e seu corpo tremeu. Dois olhos cinzentos fixaram-se nele.

- Quem é você e o que está fazendo aqui?

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A vida e a morte em branco

Janeiro 26, 2009 · 1 Comentário

- Ei, você! Olha pra cá! Não tá vendo não?! O que você vai fazer?!
A pá continuava insistente seu trabalho. Cada vez mais o buraco aumentava e a terra se encharcava com a tempestade vinda do ártico.

Como ele tinha parado na Groelândia fazendo trabalho de desova? Não se lembrava mais. Porém, alguém tinha uma dívida, esse dinheiro não aparecia, e ela era quem ficava com a terfa de limpar também o cara do mapa.

No começo parecia um trabalho ingrato, horrível, contra toda e qualquer forma de moral. Mas, que moral pagava seu aluguel? Que moral dava comida para os seus sete filhos?

Aceitou e começou a considerar aqueles corpos como encomendas esquecidas em um depósito dos correios. Nada mais que isso. Assim, o que era mórbido virou aceitável, o aceitável tornou-se comum e o comum se transformou em banal.

De banalidade em banalidade a vida e a morte passavam em branco, em um branco acachapante e irritante.

Mas, afinal, passavam.

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Aborto por estupro, uma outra visão

Janeiro 14, 2009 · 2 Comentários

Muito interessante o testemunho de uma mulher que nasceu de um estupro. Vale a pena para refletir sobre a questão do aborto nesses casos:

A história de Rebecca Kiessling
(resumo)
 
Retirado de: www.rebeccakiessling.com
 
Eu fui adotada assim que nasci. Aos 18 anos soube que fui concebida a partir de um estupro brutal sob ameaça de faca por um estuprador em série. Assim como a maior parte das pessoas, eu nunca pensei que o assunto aborto estivesse relacionado à minha vida, mas assim que recebi esta notícia percebi que não só está relacionado à minha vida, mas está ligado à minha própria existência. Era como se eu pudesse ouvir os ecos de todas as pessoas que, da forma mais simpática possível, dizem: “Bem, exceto nos caso de estupro…” ou que dizem com veemência e repulsa: “Especialmente nos casos de estupro!!!”. Existem muitas pessoas assim por aí. Elas sequer me conhecem, mas julgam a minha vida e tão prontamente a descartam só pela forma como fui concebida. Eu senti como se a partir daquele momento tivesse que justificar minha própria existência, tivesse que provar ao mundo que não deveria ter sido abortada e que eu era digna de viver. Também me lembro de me sentir como lixo por causa das pessoas que diziam que minha vida era um lixo, que eu era descartável.
 
Por favor, entenda que quando você se declara “a favor da livre escolha” ou quando abre a exceção para o estupro, o que isso realmente significa é que você pode olhar nos meus olhos e me dizer “eu acho que sua mãe deveria ter tido a opção de abortar você”. Esta é uma afirmação muito forte. Jamais diria a alguém: “Se eu tivesse tido a chance, você estaria morta agora”. Mas essa é a realidade com a qual eu vivo. Desafio qualquer um a dizer que não é. Não é como se as pessoas dissessem: “Bom, eu sou a favor da livre escolha, menos naquela pequena fresta de oportunidade em 1968/69, para que você, Rebecca, pudesse ter nascido”. Não. Esta é a realidade mais cruel desse tipo de opinião e eu posso afirmar que isso machuca e que é uma maldade. Mas sei que muita gente não quer se comprometer sobre esse assunto. Para eles, é apenas um conceito, um clichê que eles varrem para debaixo do tapete e esquecem. Eu realmente espero que, como filha de um estupro, eu possa ajudar a dar um rosto e uma voz a esta questão.
 
Diversas vezes me deparei com pessoas que me confrontaram e tentaram se desvencilhar dizendo coisas do tipo: “Bem, você teve sorte!”. Tenha certeza de que minha sobrevivência não tem nada a ver com sorte. O fato de eu estar viva hoje tem a ver com as escolhas feitas pela nossa sociedade: pessoas que lutaram para que o aborto fosse ilegal em Michigan naquela época ─ mesmo em casos de estupro ─, pessoas que brigaram para proteger a minha vida e pessoas que votaram a favor da vida. Eu não tive sorte. Fui protegida. E vocês realmente acham que nossos irmãos e irmãs que estão sendo abortados todos os dias simplesmente são “azarados”? 
 
Apesar de minha mãe biológica ter ficado feliz em me conhecer, ela me contou que foi a duas clínicas de aborto clandestinas e que eu quase fui abortada. Depois do estupro, a polícia indicou um conselheiro que simplesmente disse a ela que a melhor opção era abortar. Minha mãe biológica disse que naquela época não havia centros de apoio a grávidas em risco, mas me garantiu que, se houvesse, ela teria ido até lá pelo menos para receber um pouco mais de orientação. O conselheiro foi quem estabeleceu o contato entre ela e os abortistas clandestinos. Ela disse que a clínica tinha a típica aparência de fundo de quintal, como a gente escuta por aí, e lá “ela poderia ter me abortado de forma segura e legal”: sangue e sujeira na mesa e por todo o chão. Essas condições precárias e o fato de ser ilegal levaram-na a recuar, como acontece com a maioria das mulheres.
 
Depois ela entrou em contato com um abortista mais caro. Desta vez, se encontraria com alguém à noite no Instituto de Arte de Detroit. Alguém iria se aproximar dela, dizer seu nome, vendá-la, colocá-la no banco de trás de um carro, levá-la e então me abortar… Depois vendá-la novamente e levá-la de volta. E sabe o que eu acho mais lamentável? É que eu sei que existe um monte de gente por aí que me ouviria contar esses detalhes e que responderia com uma balançada de cabeça em desaprovação: “Seria terrível que sua mãe biológica tivesse tido que passar por tudo isso para conseguir abortar você!”. Isso é compaixão?!!! Eu entendo que eles pensem que estão sendo compassivos, mas para mim parece muita frieza de coração, não acha? É sobre a minha vida que eles estão falando de forma tão indiferente e não há nada de compaixão neste tipo de opinião. Minha mãe biológica está bem, a vida dela continuou e ela está se saindo muito bem, mas eu teria morrido e minha vida estaria acabada. A minha aparência não é a mesma de quando eu tinha quatro anos de idade ou quatro dias de vida, ainda no útero da minha mãe, mas ainda assim era inegavelmente eu e eu teria sido morta em um aborto brutal.
 
De acordo com a pesquisa do Dr. David Reardon, diretor do Instituto Elliot, co-editor do livro Vítimas e vitimados: falando sobre gravidez, aborto e crianças frutos de agressões sexuais, e autor do artigo “Estupro, incesto e aborto: olhando além dos mitos”, a maioria das mulheres que engravidam após uma agressão sexual não querem abortar e de fato ficam em pior estado depois de um aborto. http://www.afterabortion.org. Sendo assim, a opinião da maioria das pessoas sobre aborto em casos de estupro é fundamentada em falsas premissas: 1) a vítima de estupro quer abortar; 2) ela vai se sentir melhor depois do aborto; e 3) a vida daquela criança não vale o trabalho que dá para suportar uma gravidez. Eu espero que a minha história e as outras postadas neste site ajudem a acabar com este último mito.
 
Eu queria poder dizer que minha mãe biológica não queria me abortar, mas de fato ela foi convencida a não fazê-lo. Porém, o aspecto nojento e o palavreado sujo deste segundo abortista clandestino, além do receio por sua própria segurança, levaram-na a recuar. Quando ela lhe contou por telefone que não estava interessada neste acordo arriscado, este homem a insultou e a xingou. Para sua surpresa, ele ligou novamente no dia seguinte para tentar convencê-la a me abortar, e mais uma vez ela não quis prosseguir com o plano e ouviu mais uma série de insultos. Depois disso, ela simplesmente não podia mais prosseguir com essa idéia. Minha mãe biológica já estava entrando no segundo trimestre da gestação, quando seria muito mais perigoso e muito mais caro me abortar.
 
Sou muito grata por minha vida ter sido poupada, mas muitos cristãos bem intencionados me diziam coisas como “olha, Deus realmente quis que você nascesse!” e outros podem dizer “era mesmo pra você estar aqui”. Mas eu sei que Deus quer que toda criança tenha a mesma oportunidade de nascer e não posso me conformar e simplesmente dizer “bem, pelo menos a minha vida foi poupada”. Ou “eu mereci, veja o que eu fiz com a minha vida”. E as outras milhões de crianças não mereciam? Eu não consigo fazer isso. Você consegue? Você consegue simplesmente ficar aí e dizer “pelo menos eu fui desejado… pelo menos estou vivo…” ou simplesmente “sei lá”? Esse é realmente o tipo de pessoa que você quer ser? De coração frio? Uma aparência de compaixão por fora e coração de pedra e vazio por dentro? Você diz que se importa com os direitos das mulheres, mas não está nem aí pra mim porque eu sou um lembrete de algo que você prefere não encarar e que você detesta que outros se importem? Eu não me encaixo na sua agenda?
 
Na faculdade de direito eu tinha colegas que me diziam coisas como “se você tivesse sido abortada, não estaria aqui hoje e de qualquer forma não saberia a diferença, então por que se importa?”. Acredite ou não, alguns dos principais filósofos pró-aborto usam esse mesmo tipo de argumento: “O feto não sabe o que o atingiu, então não percebe que perdeu a vida”. Sendo assim, acho que se você esfaquear alguém pelas costas enquanto ele estiver dormindo, tudo bem, porque ele não sabe o que o atingiu?! Eu explicava aos meus colegas como a mesma lógica deles justificaria que eu “matasse você hoje, porque você não estaria aqui amanhã e não saberia a diferença de qualquer forma. Então, por que se importa?”. E eles ficavam com o queixo caído. É incrível o que um pouco de lógica pode fazer, quando você pára para pensar – que é o que devemos fazer numa faculdade de direito – e considera o que nós realmente estamos falando: há vidas que não estão aqui hoje porque foram abortadas. É como o velho ditado: “Se uma árvore cai na floresta e não há ninguém por perto para ouvir, será que faz barulho?”. Bem, sim! E se um bebê é abortado e ninguém fica sabendo, tem importância? A resposta é SIM! A vida dele importa. A minha vida importa. A sua vida importa e não deixe ninguém te dizer o contrário!
 
O mundo é um lugar diferente porque naquela época era ilegal a minha mãe me abortar. A sua vida é diferente porque ela não pôde me abortar legalmente e porque você está sentado aqui lendo as minhas palavras hoje! Mas você não tem que atrair platéias pra que a sua vida tenha importância. Há coisas que fazem falta a todos nós aqui hoje por causa das gerações que foram abortadas e isso importa.
 
Umas das melhores coisas que eu aprendi é que o estuprador NÃO é meu criador, como algumas pessoas queriam que eu acreditasse. Meu valor e identidade não são determinados por eu ser o “resultado de um estupro”, mas por ser uma filha de Deus. O Salmo 68, 5-6 declara: “Pai dos órfãos… no seu templo santo Deus habita. Dá o Senhor um lar ao sem-família”. E o Salmo 27, 10 nos diz: “Mesmo se pai e mãe me abandonassem, o Senhor me acolheria”. Eu sei que não há nenhum estigma em ser adotado. O Novo Testamento nos diz que é no espírito de adoção que nós somos chamados a ser filhos de Deus por Jesus Cristo nosso Senhor. Sendo assim, Ele deve ter pensado na adoção como símbolo do amor dEle por nós!
 
E o mais importante é que eu aprendi, poderei ensinar aos meus filhos e ensino aos outros que o seu valor não é medido pelas circunstâncias da sua concepção, seus pais, seus irmãos, seu parceiro, sua casa, suas roupas, sua aparência, seu QI, suas notas, seus índices, seu dinheiro, sua profissão, seus sucessos e fracassos ou pelas suas habilidades ou dificuldades. Essas são as mentiras que são perpetuadas na sociedade. De fato, muitos palestrantes motivacionais falam para suas platéias que se elas fizerem algo importante e atingirem certos padrões sociais, então elas também poderão “ser alguém”. Mas o fato é que ninguém conseguiria atingir todos esses padrões ridículos e muitas pessoas falhariam. Isso significa que elas não são “alguém” ou que elas são “ninguém”? A verdade é que você não tem que provar o seu valor a ninguém e se você quiser realmente saber qual é o seu valor, tudo o que precisa fazer é olhar para a Cruz, pois este é o preço que foi pago pela sua vida! Esse é o valor infinito que Deus colocou na sua vida! Para Ele você vale muito e para mim também. Que tal se juntar a mim para também proclamar o valor dos outros com palavras e ações?
 
Para aqueles que dizem “bem, eu não acredito em Deus e não acredito na Bíblia, então sou a favor da livre escolha de abortar ou não”, por favor, leia meu artigo “O direito da criança de não ser injustamente morta – uma abordagem da filosofia do direito”. Eu garanto que valerá o seu tempo.
 
Pela vida,
Rebecca
www.rebeccakiessling.com

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