Este é o último capítulo das antigas, depois desse eu vou ter que colocar a cabeça pra funcionar e a tendinite pra voltar a doer.__________________________________________________
Se algum dos meus dois leitores habituais (eu mesmo e você) tiver uma sugestão para onde pode ir a história, pode dar o pitaco que será bem vindo.
Sem mais delongas… Fargow e um personagem novo!
O Encontro
Não conseguia falar. Estava tomado de medo, e uma sensação de vergonha fazia o sangue subir às suas bochechas. Parecia anestesiado da dor, nem se lembrava do espinheiro.
O que eu fiz?! Seu burro, você estragou tudo!
Tentava recompor seus pensamentos, mas os olhos cinzentos insistiam.
- Responda! O que faz aqui?! Veio alimentar os lobos? , soltou uma risada mórbida, que congelou a espinha do jovem.
- Calma meu rapaz. Phentum está apenas brincando. Mas agora que chamou nossa atenção queira falar porque está aqui.
- Eh… – tentava se mexer e sair do espinheiro – … eu… meu nome é Fargow… – balbuciava as palavras.
- Sim, o que você veio fazer aqui?
Levantando-se com dificuldade, por causa dos ferimentos, Fargow fala com mais confiança, tranqüilo por perceber naquela figura simpatia que lhe confortava o pensamento.
- Eu queria conhecer vocês, quero ser um druida também.
Alguns risos são ouvidos do grupo que tinha se juntado para olhar de perto o intruso. Resmungos de reprovação também compunham o coro. O cenário não parecia ser muito favorável ao pequeno aspirante.
- Meu amigo – Jertil coloca a mão sobre o ombro do jovem – ser um druida é uma decisão muito importante e exige muita maturidade por parte do interessado. Porém, não somos somente nós quem escolhemos esse destino, a natureza nos convida e faz com que nosso sangue pulse de uma maneira singular. A linhagem da qual provém um aspirante à vida de intimidade com os elementos é seleta, pois devemos preservar a sacralidade do nosso ofício. O que fazemos é algo de carinho, de zelo que….
- Chega de tagarelar com esse moleque, temos assuntos a tratar! Fora com ele!!
A figura humana, que tinha descido majestosamente sob a forma de uma águia, aproxima-se do trio, abrindo espaço entre seus pares. A sua altura aliada ao olhar escurecido pelas densas sobrancelhas e pelas rugas em sua testa davam a Marghd, chefe do clã dos Tiltrean, uma aparência ao mesmo tempo atemorizante e respeitosa. Fargow tentou arrumar sua roupa, suja de barro e gotejada com o sangue trazido do espinheiro. Com reverência, Phentum e Jertil deixam face a face seu senhor e aquele perturbador da ordem.
Observando bem profundo num mergulho pelo negro dos olhos de Fargow, Marghd parecia ler sua alma, e desaprovar o que estava escrito.
- Garoto vá embora, aqui não é o seu lugar.
- Mas…
- Não tenho tempo para escutar seus sonhos. Vá para a cidade e seja um bom estalajadeiro.
- Saia daí!
Usando toda força que ainda tinha, Fargow puxou com violência a capa de Marghd para baixo, fazendo o corpanzil se curvar um pouco. O druida sentiu uma breve e silenciosa brisa passar rente a seu ouvido.
- Como ousa!
Num movimento, Phentum tira um punhal de seu cinto e, agarrando Fargow pelos cabelos e, puxando-o do solo, coloca a lâmina rente ao pescoço condenado.
Maghd, agora já em pé e restabelecido, grita com Phentum.
- Não lhe faça mal!
- Mas senhor…
- Largue-o e descubra de onde veio aquilo.
Os olhares seguiram a direção apontada pelo dedo, onde uma flecha cravada no tronco de uma das grandes árvores ainda vibrava.
O tempo para que todos pudessem se admirar e espantar com o acontecido não foi suficiente. Três zunidos rasgaram o ar. Com eles, os gemidos de uma dor lancinante, Maghd tomba sem vida num monte de folhas ressequidas.
Phentium larga Fargow com tanta força que um tufo de cabelo ficou em sua mão. Lança-se para acudir seu maior ídolo.
- Senhor… desgraçados! São eles, os elfos! São flechas de Seldin! Protejam-se!
Mais setas começam a vir na direção do grupo, como uma chuva letal caindo da copa das árvores.
Fargow corre para esconder-se novamente. Caramba, que está acontecendo? Toda aquela cena era chocante demais.
Pegando sua foice e repetindo palavras em um linguajar desconhecido, um druida se prepara para lançar um encantamento. O metal em sua mão agora brilha intensamente e, com força, é cravado no chão. Buracos começam a se abrir no solo e por eles são vomitadas formigas de proporções enormes. Os insetos rapidamente chegam às, sobem os troncos e inundam as copas das árvores.
Gritos de dor vindos do alto precedem elfos que caem, infestados de bichos que abrem feridas em seus corpos.
Uma névoa estranha começa a descer e escurecer aquele início de tarde.
- Rápido Gulyin, faça um jato de vento para dissipar a magia.
Quando abria suas mãos para lançar a ventania, uma seta transpassou sua garganta, que soltava a última palavra do encantamento.
A escuridão cegava os movimentos dos druidas. Desorientados, buscavam em vão fugir para esconderijos.
- Agora! Gritou uma voz por detrás da névoa.
Com sua visão noturna os elfos conseguiram facilmente apanhar suas presas. Pulando no chão, com seus punhais longos de dois gumes furavam e faziam sair golfadas de sangue das capas que já não tinham mais tom marrom.
- Achem logo o que viemos buscar, não quero mais me manchar com esse sangue.
Fargow já não conseguia ver nada. Procurava perto de si sua foice. Seus olhos estavam inutilizáveis, mas tocando sentiu, ao lado do corpo de Maghd, sua pequena arma, pelo menos parecia ser ela.
Levantou-se e começou a correr, mas logo tropeçou em algo que o fez cair.
AH, outro corpo, tenho de sair desse inferno!
Pelo formato do objeto Fargow reconheceu ser um livro, bastante pesado. Pegou-o, sem saber realmente porquê, e partiu em disparada rasgando seu rosto e seus braços nos galhos secos e arbustos. Não se importava com as feridas, contanto que saísse dali.
Os últimos gritos dos druidas delineavam que a luta já tinha chegado ao seu término. A névoa lentamente dissipou-se e um cenário triste quebrou a beleza daquele verde cheio de vida. Os corpos dos companheiros felizes pelo reencontro, agora estavam sem expressão, largados para os abutres e as larvas.
- Vasculhem tudo! Preciso daquele livro!
A figura de Teo se destacava dos outros elfos… apesar de dar ordens com tanta firmeza seu olhar parecia longe. O rio Sarflen, com seu azul intenso, parecia querer refletir a profundidade do pensamento latente na visão de Teo. Perdido em direção a seu mar, o olhar azul cristalino do rapaz se turvava em lembranças que remetiam àquele livro. Seus longos cabelos loiros esvoaçavam com uma corrente que trazia o cheiro do sangue para dentro de suas narinas. Todo aquele sangue. Toda aquela dor. Mas havia um objetivo: o livro, precisava encontrá-lo. Por si mesmo, por ela…